Não me diga...?

Quem tem imaginação?

Diário de Bordo de Jowfish.
Quinta-feira, 30 de setembro de 2010.

Esse mundo não se cansa de me surpreender... Nem seus humanos.
Esses dias, quando paramos para tomar um pouco de água (já que a do mar é um tantinho salgada), encontramos um pessoalzinho meio triste. Andavam pra lá e pra cá... Pareciam perdidos.
Barbatanna, com todo o seu carinho pelos outros (e sua vontade incontrolável de sair do caminho pirata), quis ver o que estava acontecendo e ajudar aquele povoado... Por muito pouco não a deixo pra trás... Sorte dela que é bonita.
Ao chegarmos lá, percebi que as casas eram todas iguais... As roupas eram todas iguais... O modo de falar era igual... Os nomes eram iguais... A VIDA era igual... Respirei fundo para não arrastar Barbatanna de volta pro navio.
Reuni todas as pessoas dali e perguntei quem ali já havia escrito um livro.
Ninguém.
Questionei o porquê.
“Não temos capacidade para isso, Capitão.” (em outras palavras: “Não temos imaginação suficiente”.).
Isso eu não podia deixar. Uma pessoa dizer que não tem imaginação?! Que absurdo é esse agora?! Como eu quis levá-los até Fofoquilha.
Na mesma hora, entreguei uma imagem para cada uma. A mesma imagem: Uma mulher chorando em frente a uma casa desmoronada com uma frase dizendo: mulher perde dois filhos e marido.
Pedi, então, que cada um escrevesse, atrás da figura, o que haviam pensado... Sem espiarem a resposta do outro, porque todos teriam a mesma resposta (claro que eu sabia que não seriam).
E não foram.
Comecei, então a lê-las:
“Quem pensou que eles morreram soterrados pela casa?”
Um grupo levantou a mão.
“Quem pensou que morreram de alguma outra forma?”
Outras pessoas levantaram.
“Quem pensou nos sentimentos da mulher?”
Mais um grupo.
“Quem pensou que era uma pegadinha e sairia procurando a câmera escondida?”
Muitos riram, e alguns levantaram a mão.
“Então vocês têm Imaginação.”, disse. E comecei meu sermão (como todo capitão faz à sua tripulação para que confiem nele).
“Como podem dizer que não têm imaginação, mas me dão várias respostas para a mesma coisa?
“Digam-me: O que é importante em nossas vidas? O que te faz levantar da cama e seguir vivendo?
“Família? Saúde? Amigos? Não. Não sozinhos.
“O que faz cada um de vocês levantar de manhã para seguir o dia é a MOTIVAÇÃO!”
As pessoas começaram a se olhar (deviam estar pensando que sou mais um louco)...
“Um pai levanta e vai trabalhar com a Motivação de que voltará trazendo o dinheiro para o leite de sua família. Uma mãe levanta motivada a trazer o bem estar ao lar.” (Muitas vezes é o contrário. Sem drama.)
“Um filho levanta pela manhã com a Motivação de um futuro promissor, e o orgulho dos pais, que tanto se dedicam com ele.
“Claro que há outras fontes de Motivação, mas sem essas coisinhas simples da vida, para que viveríamos?
“A Motivação é o mais importante e a família e amigos são os nossos Motivadores... Nossa fonte de inspiração e Motivação. Um não funciona sem o outro.”
Aos poucos, os rostos foram mudando de confusos para esclarecidos.
Perceberam que são coisinhas mínimas e simples que fazem toda a diferença.
E que era o mesmo na Imaginação.
Conversando com eles, percebi que tem gente que acha que Imaginação é aquilo dentro de nossas cabeças.  Outros acham que Imaginação é aquilo que passa dentro das cabeças dos outros. Tem gente que acha que Imaginação é aquele arco-íris que aparece toda a vez que o Bob Esponja fala.
E todos estão certos.
O que muita gente por aí não entende é que Imaginação é tudo aquilo que alguém é capaz de fazer. Seja em atos ou pensamentos. Oras bolas, é preciso Imaginação para escrever uma peça, mas também é preciso Imaginação para o ator conseguir transformar aquele palco em uma floresta, ou uma grande cidade, ou um céu rodeado de anjinhos.
Carrego até hoje uma frase de um antigo sábio físico: “Nesta vida, nada se cria e nada se perde. Tudo se... Copia” (perfeito). Então usei alguns exemplos que todos já ouviram (menos eles, claro):
“Tudo que construímos, começamos pela parte mais simples, ou a mais óbvia. Não adianta levantar uma casa pelo teto. Não faz sentido criar uma rede de esgotos se não começarmos pelos buracos, ou com a escolha dos canos adequados.”
“E como sei se tenho imaginação ou não?”, um deles me perguntou.
“Simples: se vocês conseguem dar várias respostas à mesma pergunta, ou a mesma resposta de formas diferentes, então vocês têm imaginação.”, respondi surpreso e já vendo as mudanças aparecerem.
“Para os que não estão muito certos que a Imaginação está em todos, quem aqui dorme de olhos fechados [porque existem aqueles que você fala com ele, ele está te olhando nos olhos e, meia hora depois, ele te pede pra começar de novo porque perdeu o começo]?”
Todos, rindo, levantaram as mãos.
“Hum... E quem aqui sonha em quase toda a noite?”
Alguns.
“Quem sonha de vez em quando?”
Muitos.
“Quem sonha MUITO de vez em quando?”
Poucos.
“Geralmente, os sonhos são coisas muito sinistras, não são? Tudo desordenado, com pessoas que nunca vimos na vida, fazendo coisas que nunca fizemos... Fazendo coisas que nunca fizemos?! Vendo pessoas que nunca vimos?! Isso não me é estranho...
“É Imaginação!”, gritou um dos ouvintes.
“Own, que lindinho”, disse Barbatanna tão baixinho que só eu ouvi.
Os olhos da Capitã eram dois faróis de tanto que brilhavam. Se eu não tivesse com o braço em seu ombro, tenho certeza que ela ia pular no pescoço daquele cara e só ia soltar quando o levássemos conosco.
“Exato!”, respondi. “O que é o sonho, se não a forma mais simples de imaginar?”
“Uma vez sonhei que era um herói que soltava teias... Mas não me lembro de ter deixado metade da cidade cheia delas...
“Mas enfim, pensem nisso. Semana que vem eu trago alguns exercícios simples para que exercitem sua imaginação...”
E para onde estamos indo agora, nesse navio. Vamos procurar novos povos para nos ajudarem nessa missão.
Quem diria que a rebeldia de Barbatanna poderia nos dar a chance de encontrar o maior de todos os tesouros: Povoar o mundo com a Imaginação.

quadrinize disse...

Esses posts me fazem pensar na nossa educação escolar. Imaginação vem de "imagem", que é algo pouco explorado em nossa infancia. Apenas recebemos, mas não somos estimulados a criar. Os livros que temos que ler na infancia lemos não são adequados para a idade e não conseguimos imaginar, formar as imagens. Fomos criados de frente para a televisão. Não me admira que realmente existam pessoas como essas, que acreditam que não tem imaginação. São padronizadas e se acostumam com isso.

Tripulação disse...

O problema é que muitos dos professores não leem. Por isso não incentivam a ida à biblioteca... Muito menos indicam livros decentes. Quando indicam, são livros que eles leram quando eram jovens [o que já faz um tempinho...] e, é óbvio, que MUITO DIFICILMENTE conseguirão atrair alguém.

Larissa Vicentini. disse...

É bem por aí mesmo. Pensei nos sonhos... Que são elementos do dia-a-dia e da história de vida de alguém reorganizados. Os sonhos ficam mesmo interessantes e é algo muito natural. Então não há falta de imaginação, há preguiça apenas ''/. Ficou a dica.

Bjaum.

Mey disse...

Os pais devem dar o exemplo, lendo para os filhos desde pequeninos. Quanto mais cedo se cria o hábito de leitura, muito mais imaginação será despertada.

OPL disse...

ou não...

IAUHSIUAHUAHUAHSAISAHSU

P-)